coragem

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tão corajosa eu fui.

engravidei num colégio de freiras.

casei no funeral do meu avô.

pari sozinha dois filhos prematuros.

mudei de casa, de cidade, de roupa, de identidade.

tantas e tantas vezes, que perdi a conta e o rumo.

mantive o prumo, apesar dos solavancos.

fui escudeira do adoecer de tanta gente.

a jornada, por fim, me acovardou.

não sei se saio da cama, abro a janela, respiro o ar de um novo dia,

de um novo mundo, de novos quereres.

não sei se puxo o edredom e me asfixio na dor.

talvez deva erguer o escudo da coragem e abraçar a covardia.

a cautela acena, me chama desvairadamente.

ela sabe do que a coragem é capaz.

Sobre estilo

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Um tema recorrente. Uma opinião coerente. Uma questão de estilo.

“Um estilo não se adquire; não se troca de estilo como se troca de camisa. O estilo individual de uma pessoa corresponde a seu modo de ser, de viver, de conviver e de produzir. Corresponde a seu modo de dar e de se dar. Nem que se quisesse, seria possível trocar de estilo. Estilo é estilo de vida. É a essência de uma pessoa, sua integração, sua própria coerência interior. Dentro de um estilo o indivíduo desenvolve sua personalidade, se estrutura e estrutura sua obra. Dentro de seu estilo, pois, o indivíduo cria. Transformando-se quantas vezes for necessário, poderá renovar as formas e renovar a si próprio, sem jamais se violentar.”(OSTROWER, Fayga, Criatividade e Processo de Criação, pg 141)

Caponata Siciliana

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Pra inaugurar uma nova Categoria – em Coisas de Mulher – Forno e fogão – uma delícia de gostosura. A caponata é perfeita como um tira gosto agridoce. Leve, fácil e rápida de fazer.

caponata-siciliana

Ingredientes:

  • 3 beringelas médias com casca, cortadas em tirinhas
  • 2 cebolas cortadas em rodelas finas
  • 3 dentes de alho picados
  • ¾ xícara de azeite de oliva
  • 1 pimenta dedo de moça picada
  • casca ralada de meio limão siciliano
  • sal a gosto
  • 2 colher (sopa) de açúcar
  • ½ xícara de uva passa preta
  • ¼ xícara de vinagre branco
  • Fatias de pão ou torradinhas para acompanhar

Modo de fazer:

            Em uma frigideira grande, leve ao fogo médio as berinjelas, cebolas, alho e o azeite. Deixe cozinhar durante uns 15 minutos, mexendo de vez em quando. Quando a berinjela ficar levemente macia, acrescente os ingredientes restantes e cozinhe mais alguns minutos. Deixe esfriar. Sirva sobre fatias de pão ou torradinhas.

            OBS: Esta caponata deve ser guardada no refrigerador.

                    O prazo para consumo é de 7 a 10 dias.

                   Depois de pronta, talvez precise regular o tempero.

caponata

Se preferir, pode amassar com um garfo pra ficar tipo patê.

E, tudo recomeçou com Pollock

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O pior do verão é o calor. O melhor, as promoções. E liquidações. Vinha namorando há tempo um livro de arte do pintor americano Jackson Pollock. Qualquer um seria meu suficiente. Em parte, por necessidade. Em parte, por capricho. Queria conhecer a história e a personalidade de Pollock. Queria encontrar uma relação entre a arte dele e a minha: meu tema de conclusão da Arterapia. Quando retomei a pintura, em 2013, sabia apenas que não frequentaria nem escola, nem professor, nem estudaria técnicas de pintura. De todas as artes e artesanatos que faço, a pintura é a arte que menos domino. O desenho, as cores, a luz, a sombra. Algo acontece, pois sempre, absolutamente sempre, perco a mão. Do período em que pintei em atelier de pintura, sinto-me uma fraude na maioria das telas. As pinceladas mais marcantes são das professoras que tentavam me ensinar a pintar. Nunca aprendi.

Mas, queria pintar.

Queria imprimir cor na minha história. Quando decidi pintar uma tela para a adega de casa, comecei carimbando a tela com o fundo molhado de vinho da garrafa + placas de madeira de caixas de vinho. Ficou feio, tenho de admitir. Ao olhar para a tela, a certeza de que aquele troço definitivamente não era para mim. A vontade era de jogar tudo no lixo. O que quer que eu fizesse com aquela tela detonada não mudaria o pior destino dela. Levei-a ao jardim. Era de tarde ainda, e o dia, ensolarado. Peguei restos de tintas acrílicas e fiz, sem-saber-sabendo-apenas-sentindo minha primeira drip painting. O resultado? Absolutamente a minha cara. Amei, minha família amou, os amigos também. A tela da adega abriu a porteira para muitas outras telas. Devo ter pintado umas 20 telas desde então.

tela-adega

Se domino a pintura hoje? Não, ainda não. Tenho, assim como Pollock teve, dúvidas quanto ao meu fazer pictórico. “Isto é uma pintura?” Teria sido o questionamento de Pollock a Lee Krasner, influente pintora expressionista abstrata da segunda metade do século XX.

Isto é uma pintura? Penso que sim. Minha pintura é uma deliciosa brincadeira com cores e tintas. O resultado me agrada e alegra. Não me sinto mais uma fraude, pois cada uma das 20 telas pintadas nestes últimos 3 anos, refletem exatamente quem sou.

Voltando ao verão e às promoções.

Junto com Pollock vieram mais 14 livros de literatura (entre escritores nacionais – tipo novos talentos – e estrangeiros). Todos, em promoção de 50 a 80 %. Se são literatura de primeira? Ainda vou saber. Depois eu conto.

livros

 

Lagarteando

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Lagartos lagarteiam na praia de casa.

Lagartice e Lagartoso derem o ar da graça.

Expulsos e expostos pelo calor.

Expostos também estão

– Longe de tudo e de todos –

páginas e mais páginas infladas, navalhadas a foice e guilhotina.

No verão,

lagarteiam também parágrafos enxutos.

Textos, palavras, poemas.

Tudo magro. Leve e leviano.

– Os Elefantes Voam –

 tomam banho de drink e sol.

Tim tim.

Plin plin.

Agenda 2017

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Que tal começar o ano fazendo arte? Fazer uma agenda personalizada é fácil e rápido. Use restos de papeis, adesivos, fitas, bailarinas, fotos, qualquer coisa que vc goste e que possa ser colado.

Este é a terceira agenda que faço.

2015 - 2016 - 2017

2015 – 2016 – 2017

O primeiro passo é adquirir a agenda crua. As minhas, consegui em loja de Scrap. Separe o material. Das fotos à fita dupla face. Depois é soltar a imaginação. Deixe-a voar. Use e abuse de cores, momentos, figurinhas e lembranças. Não tenha medo de ousar. A agenda é sua. O estilo, também.

Juntando fotos e materiais

Juntando fotos e materiais

2017 deve marcar meu retorno aos consultórios de psicologia. Pelo menos, é o que está escrito numa das primeiras páginas da agenda, no primeiro item das Metas Profissionais. Por isso, a escolha da foto na entrada do museu de Freud.

Entrada na casa /museu Freud em Viena

Entrada na casa /museu Freud em Viena

Primeira e segunda capas expressam o desejo do ano: investimento pessoal e profissional em primeiro plano. Nas primeiras capas.

Verso da capa.

Verso da capa.

Atividade profissional combina com calendários e relógios. Fotos, adesivos e recortes compõe o verso da primeira capa. Tudo junto e misturado. O enredo do Quem ainda usa agenda de papel, sabe que além de anotar compromissos, a agenda serve pra guardar de tudo um pouco.

Segunda capa + Envelope Interno

Segunda capa + Envelope Interno

Abrindo a agenda.

Envelope interno, pra guardar papeizinhos, folders, fotos, receitas, etcetcetc.

Envelope interno, pra guardar papeizinhos, folders, fotos, receitas, etcetcetc.

Nesta capa são três bolsos. Atrás da foto da família tem um bolso para guardar cartões de visita; atrás do papel quadriculado com flores, a meia lua abre um bolso de tamanho médio, e atrás do papel verde pespontado, o maior de todos os bolsos.

Verso do envelope interno. Mais bolsos, mais esconderijos

Verso do envelope interno. Mais bolsos, mais esconderijos

O risco é perder anotações e informações. Perder é só uma maneira de dizer. A questão é saber o que e onde encontrar, porque no verso do envelope, foram feitos mais dois bolsos.

capa interna 2

capa interna 2

A família tem espaço garantido. Na agenda e no coração. Na hora da saudade, a terceira capa traz fotos de quem faz a vida valer a pena.

A quarta capa

A quarta capa

A família estendida: genro e nora. Pessoinhas que fazem bem aos filhos da gente. Fazem bem pra gente também. Fotos compõe um mosaico de recortes e adesivos. A ideia é brincar usando todo tipo de materiais.

Gostou da brincadeira?

Casa de praia

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Quando se vive em casa de praia, a gente se diverte muito

– muito menos do que o mundo imagina -.

A gente vai pouco à praia, porque tá logo ali.

Então amanhã, depois, sempre, vai ter dia para ir, e quase nunca vai.

A gente recebe visita, amigo, parente. Come, bebe, dorme. Compra demais. Lê de menos. Descansa de menos. Menos do que gostaria. 

Tudo pode ser e normalmente é, demais. Ou, de menos.

A gente – quase sempre – nem percebe o quanto que fez.

Ou faz. Ou, está fazendo.

Talvez no inverno sobre tempo pra viver de verdade a temporada na casa da praia.

Buscadora

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O tempo todo e quase sempre estou à caça de algo novo. Pode ser uma roupa, um corte de cabelo, a cor da unha. Não, não sou vaidosa. Quando muito, curiosa. … Os anos passam, a gente muda, o mundo muda, tudo meio que muda. Revolvo minha essência em busca de um novo jeito de ser, saber e existir. Me busco e me reencontro outra. Mudar faz parte do processo de existir e ser alguém.

Cadarços – Estudo de Caso

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“Qualquer semelhança é mera coincidência.” Um estudo. Uma história. Não é minha. Não é sua, nem nossa. Se Bem que poderia ser.

I. CASO CLÍNICO

 George é um jovem de 16 anos, transferido para o hospital a partir de um centro de detenção juvenil, após uma séria tentativa de suicídio. De algum modo, ele atara cadarços de sapatos e tiras de tecido em torno de seu pescoço, causando prejuízo respiratório, sendo encontrado cianótico e semiconsciente. O jovem dera entrada no centro de detenção naquele dia e os funcionários haviam percebido que ele se mostrava bastante retraído. Na admissão, George relutou em falar, exceto para dizer que iria matar-se, e ninguém poderia impedi-lo. Entretanto, ele admitiu uma história de 2 semanas de humor deprimido, dificuldade para dormir, diminuição do apetite, menor interesse por tudo, sentimentos de culpa e ideação suicida. De acordo com seus pais, George não teve dificuldades emocionais até os 13 anos, quando então se envolveu com drogas, principalmente LSD, maconha e sedativos não-opióides. Suas notas caíram drasticamente, ele fugiu de casa em diversas ocasiões após discussões com seus pais, e fez um gesto suicida tomando uma superdosagem de aspirina. Um ano depois, após uma discussão com o diretor, foi expulso da escola. Incapaz de controlarem seu comportamento, seus pais fizeram com que fosse avaliado em uma clínica de saúde mental, sendo recomendada a colocação e um albergue de grupo.Ele, aparentemente, saiu-se bem ali, e seu relacionamento com os pais melhorou imensamente com aconselhamento familiar. Ele era bastante responsável, mantendo um emprego e freqüentando a escola, e não esteve envolvido em quaisquer atividades ilegais, incluindo o uso de drogas.

Seis meses antes da admissão no hospital, entretanto, George novamente começou a usar drogas e, ao longo de duas semanas, engajou-se em 10 arrombamentos, sempre sozinho. Ele recorda que na época estava deprimido, mas não consegue recordar se a alteração no humor ocorreu antes ou depois da volta ao envolvimento com drogas.

Então foi enviado para o centro de detenção juvenil, onde se saiu tão bem que recebeu alta e foi colocado sob a tutela dos pais 3 semanas antes. Um dia depois de voltar para casa, saiu impulsivamente com seus colegas em um automóvel roubado, para uma viagem ao Texas, sendo detido e readmitido no centro de detenção. A depressão de George começou logo depois, e, de acordo com ele, a culpa com o que fizera aos pais o levou à tentativa de suicídio.

  1. DINÂMICA DO CASO

Apesar de não haverem dados suficientes para formular um entendimento psicodinâmico detalhado, várias são as observações e reflexões possíveis, levando-se em consideração os dados conhecidos.

Segundo os pais de George, este não tivera nenhuma dificuldade emocional até os 13 anos. Foi somente após o envolvimento com o uso de drogas que houve uma mudança significativa no comportamento de George.

Como nada sabemos sobre suas relações familiares, sobre o seu grupo de amigos nem sobre seu desenvolvimento emocional anterior, pode-se pensar que a entrada na adolescência, um período normalmente marcado por mudanças físicas, psíquicas, familiares e sociais, possam ter despertado sentimentos tais que levaram o menino a buscar refúgio nas drogas.

Uma das tarefas básicas, senão a grande tarefa da adolescência é a busca de uma identidade. Para Kalina, esta é uma fase que pode ser marcada por muita angústia e desolação, e é quando o adito potencial busca formas de evitar este encontro consigo mesmo. Assim, vítima de sua fraqueza, ele não demora a descobrir que a vida além de oferecer gratificações, também oferece frustrações que podem ser sentidas como devastadoras.

Eduardo Kalina afirma que “O drogadito é sempre dominado por angústias e temores cuja qualidade e intensidade os transforma em sentimentos inteiramente insuportáveis para seu ego. A insegurança em si próprio e o medo de ser destruído demonstram, pela constância com que se evidenciam e a intensidade com que se apossam deste tipo de personalidade, que a estrutura de ego do toxicômano potencial é notavelmente fraca.”( texto p.78, do livro Drogadição Hoje)

Ou seja, para Eduardo Kalina existe um tipo de personalidade aditiva com características próprias, que justificam o envolvimento com as drogas e toda a destruição posterior, oriunda deste envolvimento. Para ele, “a maneira como o adito potencial sente esta fragilidade não é outra coisa que a vivência que, em última instância, tem de sua morte” (p. 78). Para este autor, o adito em potencial pré-sente o “alto grau de inconsistência de sua identidade”.

 Diariamente todos temos a consciência de nossas limitações como seres humanos. Mas em geral quanto maior a fragilidade egóica, maior o desejo de ser poderoso. Kalina afirma que sob o efeito da droga, “a sensação de fragilidade é substituída por um sentimento de extraordinária consistência e força”.

A Síndrome de Popeye, reflete este pensamento. A droga seria o equivalente simbólico do espinafre de Popeye. Quando o indivíduo se droga, ele vive de forma parcial ou total a ilusão de ser Popeye. A droga – espinafre – lhe permite viver a ilusão transitória de ser outro: forte, perfeito, invejado, etc. É a onipotência do tudo querer e tudo poder do adolescente.

No entanto, o efeito da droga é transitório. Logo o adito se dá conta da realidade, e sua intolerância à frustração, cresce numa proporção direta à satisfação que a droga oferece. Isto prossegue até que a dose da droga não dá mais o prazer buscado, quando então, existe o risco da overdose, para atingir o mesmo bem estar, o mesmo prazer.

Kalina afirma que ”no clímax de seu desespero, o drogadito descobre que não há tóxico mais eficaz contra o risco de morte que a própria morte”. (p.84) A morte surge como a melhor alternativa para acabar com a incerteza, a angústia e o risco opressor da frustração sem limite. Para este autor, o adicto constrói um projeto de morte, claramente suicida, cujo objetivo final e radical é acabar com o sofrimento e com todos os problemas, o que reflete uma conduta abertamente psicótica. A morte é então vista como o saldo de um extermínio implacável ao qual o jovem se submeteu desde o momento em que iniciou o consumo de drogas, e mesmo antes disso.

Mas o que leva um adolescente de 13 anos, a enveredar por um caminho tão destrutivo, tão suicida?

Várias são as causas da etiologia do abuso e dependência de substância. As teorias iniciais, segundo Kaplan & Sadock, nasceram dos modelos psicodinâmicos. Posteriormente foram incluídas as variáveis comportamentais, genéticas e neuroquímicas. Atualmente, acredita-se que todas estas variáveis podem estar presentes.

A escolha das drogas usadas por George, o LSD ( um alucinógeno), a maconha (psicoativo) e sedativos não-opióides, podem sugerir que George buscava algo para se afastar dele mesmo, das suas angústias, incertezas, inseguranças, para se anestesiar das suas dores (físicas?, psíquicas?), para fazer parte e ser aceito por um grupo de amigos, para se diferenciar do todo, para ser reconhecido e visto como único, para experimentar o proibido. Na adolescência vários são os atrativos que a droga oferece. Bem como, várias podem ser as funções da droga para o adolescente.

Segundo Kaplan& Sadock, “ O início de um transtorno de humor na adolescência pode ser difícil de diagnosticar quando visto pela primeira vez, caso a adolescente tenha tentado automedicar-se com álcool ou outras substâncias ilícitas. Em um estudo recente, 17% dos jovens com transtorno de humor buscaram atendimento médico primeiramente como abusadores de substâncias. Apenas depois da desintoxicação os sintomas psiquiátricos puderam ser adequadamente avaliados e o diagnóstico correto de transtorno de humor pôde ser feito”. ( 1997, p.1041).

Pensar em George como um jovem depressivo parece justificar o seu comportamento de humor deprimido, dificuldade para dormir, diminuição do apetite, menor interesse por tudo, sentimentos de culpa e ideação suicida.

Da mesma forma, Kaplan&Sadock afirmam que “Na adolescência, um comportamento negativista ou francamente anti-social e o uso de álcool ou outras substância ilícitas pode estar presente ou justificar os diagnósticos adicionais de transtorno de oposição desafiante, transtorno de conduta e abuso ou dependência de substância.”(1997, p. 1040)

Sukhamani K. Gill e colaboradores,relatam que enquanto as crianças e adolescentes estiverem deprimidos, eles sofrem habitualmente das seqüelas como desempenho escolar insatisfatório e comprometimento das relações interpessoais, como também risco elevado de suicídio, pensamento homicida, fumo, abuso de álcool e de outras substâncias, gravidez precoce, etc.

Sabe-se que as porcentagens de depressão maior na população jovem têm aumentado na última década e as taxas de suicídio entre adolescentes quadruplicaram na última metade do século( Lafer, Almeida, Fráguas & Miguel, 2000, p. 241)

Solomon afirma que “ A depressão e o abuso de substâncias formam um ciclo. Os deprimidos abusam de substâncias numa aposta para se livrarem da depressão. Elas perturbam suas vidas a ponto de ficarem deprimidas pelo dano causado. “ (2002, p.201) Para ele “4% de adolescentes que tiveram depressão na infância cometem suicídio. Um enorme número tenta o suicídio, e tem altas taxas de quase todo tipo de problema grave de ajuste social. A depressão ocorre entre um bom número de crianças antes da puberdade, mas chega ao auge na adolescência. Nesse estágio, é quase sempre combinada com abuso de substância ou transtornos de ansiedade” (p. 174)

III. DIAGNÓSTICO

Pelos dados do caso clínico em questão surge um questionamento:

O que aconteceu antes: um comportamento depressivo como gatilho para o abuso de substância, ou, o início do abuso de substância levando ao conseqüente comportamento depressivo. Segundo os pais, George nunca apresentara dificuldades emocionais antes do início do uso de drogas; o que não é difícil acontecer numa família drogadita, pois os pais tendem a negar as dificuldades do filho, e vêem o ingresso no mundo das drogas com estupefação.

Vários são os sintomas encontrados que nos remetem a pensar num quadro depressivo grave para George, como o humor irritável e deprimido, agressividade, condutas anti-sociais, comportamento destrutivo, insônia, baixa auto-estima, isolamento, recusa escolar, baixo rendimento escolar, tentativa de suicídio, etc.

George apresenta características de um adolescente envolvido em drogas com comportamentos claramente anti-sociais. No entanto, estes comportamentos podem estar associados ao quadro depressivo de George, e estarem funcionando como defesa para a personalidade frágil de George.

Pela gravidade dos sintomas e principalmente pelas tentativas recorrentes de suicídio, pode-se pensar num quadro depressivo maior.

  1. INDICAÇÃO TERAPÊUTICA

Como George está internado devido à sua séria tentativa de suicídio, é importante que ele permaneça internado, a fim de que possa ser melhor avaliado e observado, de forma a poder controla-lo e conte-lo, devido às ameaças de consumar o suicídio. Assim pode-se auxilia-lo a conter seus impulsos, aliviar sua culpa e preservar sua vida.

Penso que o tripé para o acompanhamento para George seja o acompanhamento psiquiátrico medicamentoso, psicoterapia individual e acompanhamento familiar.

O acompanhamento psiquiátrico medicamentoso deve ser, neste momento, o carro-chefe, devido à sintomatologia depressiva e ao risco sério de suicídio.

A psicoterapia individual mostra-se necessária devido ao estado confusional de George, seus sentimentos de culpa, sua desestrutura e fragilidade psíquica, sua desesperança. O tipo de psicoterapia utilizada pode ser variável podendo num primeiro momento ser psicoterapia de apoio, cognitivo-comportamental num segundo momento, e, por último uma psicoterapia psicodinâmica. Cada uma num momento distinto do processo de recuperação e reestruturação de George. Cada qual com seus objetivos e foco de alcance.

O acompanhamento familiar é sempre uma conduta terapêutica adequada, principalmente por se tratar de um paciente adolescente. Além de poder auxiliar os pais com relação ao quadro psicopatológico de George, também poderá auxilia-los a lidar com a adolescência deste filho, sua recuperação, como também poder ver, de que forma, a sintomatologia do filho pode estar a serviço de outros conflitos familiares encobertos.

V. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.  DSM-IV – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Trad. por Dayse     Batista. 4ª ed. Porto Alegre, Artes Médicas, 1995.

  1. KAPLAN, Harold I.; SADOCK, Benjamin J.; GREBB, Jack A. COMPÊNDIO DE PSIQUIATRIA – Ciências do Comportamento e Psiquiatria Clínica Trad. por Dayse Batista. 7ª ed. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.
  1. KALINA, Eduardo.   Drogadição Hoje Texto: cap. 5 “ O significado do corpo e da               morte na experiência drogaditiva.
  1. KALINA, Eduardo.   Clínica e Terapêutica das Adicções. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.
  1. LAFER, Beny; ALMEIDA, Osvaldo P.; FRÁGUAS JR., Renério; MIGUEL, Eurípedes C. Depressão no Ciclo da Vida Porto Alegre, Artes Médicas, 2000
  1. SOLOMON, Andrew.   O DEMÔNIO DO MEIO-DIA – Uma anatomia da depressão.   Rio de Janeiro, Objetiva, 2002.