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O scrap, assim como o patchwork, o mosaico, a literatura, a pintura e tantas outras artes, existem graças à união de quantidades incertas de vários materiais e inspirações. O muito que se faz com pouco engrandece retalhos de tecidos, fitas e linhas; papeis, colas, folders, ingressos e mapas; azulejos, pastilhas de vidro, cacos de porcelanas e espelhos; palavras, frases e clichês; potes, tubos e latas de tintas e texturas.

O universo da sucata pode ganhar nova vida, função e utilidade. Ou, pode sumir no lixo.

Como arteira deste mundo encantado em desuso ou descartável, encontro verdadeiros tesouros do passado, possibilidades para o futuro. Tem gente que adora casa nova. Também eu as adoro. Mas, é nas casas antigas que encontro surpresas e antigas novidades em forma de antiguidades de valor inestimável. Sótãos e porões me encantam pela promessa que representam. Caixas velhas e esfarrapadas, sacos plásticos mofados e socados em fundos de armários e prateleiras, aconchegam o que poderia ser importante mas se perdeu no tempo e no conceito do que deveria ter sido.

A vida também é assim. Nas catacumbas da nossa existência existem verdadeiros tesouros perdidos e mofados. Incompreendidos e mal interpretados. Acredito em lembranças perdidas e esquecidas nos fundos de baús corroídos de cupins e carcomidas por traças. São lembranças que quando remendadas restauram a história do que a gente foi e no que se transformou. Acredito que nem toda lembrança é traumática e dolorosa. Como bem afirmou James Hillman “Talvez nossa vida seja menos determinada pela infância do que pelo modo como aprendemos a imaginar nossa infância.” Entrar em nossos becos mais escuros e revirar fatos e fotos, imaginações e divagações pode ser uma ótima maneira de nos reconhecer sem medo. Pouco importa o passado que tivemos. Importa o que fazemos com ele ou com o que deixamos que ele faça conosco.

E nele certamente habitam o mistério e a magia.

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